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Em crise, cidades cancelam ou reduzem gastos com carnaval

Atoladas em dívidas, preocupadas com mais gastos em momento de crise econômica e temerosas da violência, muitas prefeituras batem em retirada do Reino de Momo

 “Adeus, adeus/meu pandeiro do samba/tamborim de bamba...” Os versos de Adeus, batucada, sucesso da década de 1930 na voz de Carmen Miranda (1909-1955), traduzem a situação de muitas cidades mineiras neste carnaval. Atoladas em dívidas, preocupadas com mais gastos em momento de crise econômica e temerosas da violência, muitas prefeituras mineiras batem em retirada do Reino de Momo e preferem deixar as ruas entregues à tranquilidade ou a manifestações espontâneas, como os bloquinhos que pipocam em todo canto do século 21.

 

O caso mais recente é Cássia, no Sul de Minas, que cancelou a folia devido à febre amarela – embora não haja casos no município, há registro de óbitos em municípios próximos. Cambuí, também no Sul de Minas, fica sem o ronco da cuíca. O prefeito Tales Tadeu Tavares publicou um comunicado informando que, em vez de gastar R$ 150 mil com a folia, vai investir o valor em “educação, saúde, manutenção das vias públicas e dos veículos e máquinas do município”.

O presidente da Associação das Cidades Históricas de Minas Gerais e prefeito de Conceição do Mato Dentro, José Fernando Aparecido de Oliveira, explica que já informou os chefes do Executivo dos 30 municípios que compõem a entidade sobre as determinações do MPMG. “O momento é de austeridade e muitos prefeitos não têm como gastar com o carnaval. É o nosso caso, embora sejam bem-vindas manifestações espontâneas, como os blocos de rua”, diz José Fernando.

Também no Sul de Minas, Pouso Alegre (150 mil habitantes) deixa o carnaval passar em brancas nuvens. A secretária municipal de Cultura, Regina Maria Andere de Brito explica que a atual administração encontrou dívidas de R$ 30 milhões da gestão anterior e, por isso, não vai patrocinar o desfile de blocos caricatos e escolas de samba. “No ano passado, foram gastos R$ 404 mil e não há recursos desta vez”, acrescentou Regina. Saiba mais: Pagar à vista ou parcelar? Saiba qual opção escolher em cada situação – Patrocinado

TERRA DO MARQUÊS A farra em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, teve seus tempos áureos, com muita animação nas ruas, blocos irreverentes e decoração caprichada. Mas desta vez entrou água fria na fervura da folia e a prefeitura local divulgou nota informando que passa por uma “grave crise econômica” e tem adotado uma “série de medidas, como reduzir os gastos com a máquina pública, renegociar com fornecedores e buscar parcerias com os governos estadual e federal”. A decisão é essencial para que o município – que não dispõe de recursos para realizar a festa – possa investir em serviços básicos como saúde, infraestrutura, segurança e educação”, disse no documento.

De acordo com a administração municipal, a decisão foi tomada “em vista dos altos custos que seriam gerados para a realização do evento, de acordo com os padrões sanitários e de segurança adequados, o atendimento necessário aos foliões e a promoção de uma programação de boa qualidade para a população”. Vale lembrar que Nova Lima, antiga Congonhas de Sabará, é onde nasceu Cândido José de Araújo Viana (1793-1875), o Marquês de Sapucaí, que deu nome à rua onde, no início da década de 1980, foi construído o Sambódromo do Rio de Janeiro (RJ).

Na Região do Triângulo, a Prefeitura de Uberlândia também decidiu ficar sem o ronco da cuíca. Em 6 de janeiro, a administração municipal decretou calamidade financeira em função de “dívidas deixadas pela gestão anterior”. Por causa disso, decidiu suspender a “aplicação de verba pública em festividades em geral”. Outra cidade que não vai investir no carnaval é Patos de Minas, no Alto Paranaíba. De acordo com a prefeitura local, não há programação para este ano. O motivo é a situação financeira do município e conforme as autoridades, há outras prioridades, como “limpeza da cidade e atenção à saúde”. Ouro Branco, na Região Central, também resolveu deixar Momo às moscas. Nova Era, na Região Central, também fica sem a farra.

DIAMANTINA Quem está acostumado a passar o carnaval em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, não vai ouvir, este ano, a Bartucada e a Bat-Caverna, atrações que arrastam multidões pelas ladeiras da terra de JK e Chica da Silva – o som se cala após três décadas. O prefeito Juscelino Brasiliano Roque explica que não houve adequações e não lamenta a ausência, certo de que vai promover uma festa “mais família” e com a inclusão de vários públicos, eclética, a exemplo de crianças, jovens e idosos de várias regiões do município.

Juscelino conta que a explosão do carnaval de BH não tira público de Diamantina. “Gosto muito de carnaval e sei que não atrapalha em nada. O carnaval de Diamantina perdeu público por falta de qualidade. O de 2016, por exemplo, foi um fiasco. Prefiro uma festa de qualidade, sem baderna, bem musical e com respeito”, afirma.  (Portal UAI)